A cerimônia de entrega de certificados e kits audiovisuais do curso de Formação em Documentário e Cinema Etnográfico, realizada nesta quinta-feira (5), no auditório do IEMA Pleno São Luís/Centro, marcou o surgimento de uma nova geração de pensadores da imagem. O evento celebrou a transferência de tecnologia e conhecimento para estudantes e professores que, historicamente, estavam apenas diante das câmeras e agora passam a assumir o controle da própria narrativa.
As escolas participantes do projeto que produziram no mínimo cinco obras audiovisuais tiveram direito a receber um kit de produção, composto por ilha de edição, câmera, microfone boom e gravador. Ao todo, quatro instituições da rede estadual foram contempladas: o IEMA/Centro, o IEMA/Gonçalves Dias, o Liceu Maranhense e a escola Dr. Antônio Jorge Dino, localizada no bairro São Cristóvão.
O projeto foi realizado com apoio da Lei Rouanet, patrocínio da Equinox Gold, produção da FazCine Educação, com apoio da Federação das Indústrias do Maranhão (FIEMA), Sesc e Governo do Maranhão, por meio da Secretaria de Estado da Educação. A iniciativa vai além do ensino técnico de operação de equipamentos audiovisuais, buscando explorar a subjetividade de estudantes e professores e transformar a sala de aula em um espaço de resistência cultural e preservação da memória.
Para os jovens do IEMA, a formação em cinema etnográfico representa a conquista do direito à própria imagem. Ao aprenderem a documentar o cotidiano, as festas populares e os dilemas sociais sob uma perspectiva antropológica, os estudantes deixam de ser consumidores passivos de mídia para se tornarem produtores de cultura. Já os professores assumem o papel de mediadores dessa nova alfabetização visual, considerada essencial para uma educação integral e crítica.
O coordenador do projeto e professor das disciplinas de direção de fotografia, produção, direção e antropologia visual em cinema, Emilson Ferreira, destacou a importância de descentralizar o acesso aos meios de produção audiovisual.
Segundo ele, o projeto contou com uma formação de 200 horas destinada aos professores, iniciada em julho de 2024 e finalizada em dezembro de 2025, além de quatro oficinas voltadas aos estudantes nas áreas de câmera, som, produção e edição, cada uma com carga horária de 10 horas.
“A base teórica que norteou este projeto foi a antropologia fílmica, área do conhecimento que dialoga com qualquer disciplina. Possibilitamos a participação de professores da área de ciências exatas, ciências biológicas, e outras, os quais desenvolveram pesquisas com seus alunos que resultou em 14 filmes etnográficos. Cada filme teve mais de uma versão, pois nós trabalhamos na perspectiva metodológica do Jean Rouch onde o objeto é construído de forma coletiva colaborativa.
Teve filme que tiveram seis versões a partir do olhar dos estudantes. E o legal de cada esboço feito fizemos uma parceira com o Cinema do Sesc onde o filme era exibido, debatido com a comunidade, estudantes, professores, cineastas e personagens da produção onde depois os estudantes voltavam a campo para melhorar sua pesquisa audiovisual faziam uma nova versão e de novo a gente exibia o produto”, explicou Emilson Ferreira.
Durante a formação, foram ofertadas mais de 1.800 vagas para estudantes e professores que tiveram contato, pela primeira vez, com a prática e a operação do cinema, passando por etapas de pesquisa, produção e pós-produção, com o objetivo de desenvolver novas metodologias de ensino.
“Professores e estudantes foram envolvidos no mundo do cinema. E a contribuição que este curso dá é a formação de novos atores sociais, produtores culturais, no cenário audiovisual do nosso estado. Essa experiência também envolveu professores e pesquisadores da Universidade Federal do Pará e do Paraná onde os professores destas escolas tiveram um contato mais acadêmico da pesquisa no viés da antropologia fílmica”, acrescentou o coordenador.
Legado físico e intelectual
A entrega dos kits audiovisuais — compostos por ilhas de edição, câmeras e sistemas de captação de áudio — garante que o projeto tenha continuidade para além da cerimônia de encerramento. As escolas contempladas passam a atuar como polos de produção cultural independente.
O investimento da Equinox Gold e o suporte da FIEMA, por meio da Lei de Incentivo, consolidam uma política de responsabilidade social voltada para o fortalecimento do talento humano no estado.
Com os certificados em mãos e os equipamentos disponíveis, os novos documentaristas se preparam agora para as janelas de exibição, quando o público poderá acompanhar produções que revelam um Maranhão filmado por quem vive sua realidade cotidiana.
Para Stefanie Freire, de 18 anos, ex-aluna do IEMA/Centro e participante da formação, a experiência representou uma descoberta sobre o universo do cinema.
“Eu minha colega Camile Porto lideramos a produção sobre os Casarões de São Luís, e para nós foi muito bom porque envolvemos uma boa parte dos alunos da escola a conhecer mais sobre a história dos abandonos dos casarões de São Luís. Percebemos que estes casarões estão em estado de degradação ao longo do tempo e queríamos que este trabalho despertasse uma conscientização para preservá-los, pois eles fazem parte de nossa história”, explicou a estudante, que pretende cursar jornalismo.
















